26.11.09

Cansaço-Oco

Não me pergunte o que sinto, eu não sinto nada. Hoje eu queria chorar o meu cansaço. Queria desmontar no chão e por lá ficar até o mundo fazer sentido outra vez. Eu queria que minha anestesia existencial fosse embora, queria sentir um pouco de dor, um dolorido alento me dizendo que ainda não morri. É que dizem que morrer é apenas retornar à não-existência - mas eu, que não existo já há algum tempo, continuo com a cabeça funcionando, consciente do meu não-existir. Injusto, espécie de maldição, mandinga, só pode ser. Meu cansaço alcança tudo que persiste na minha vida, de uma forma que até chorá-lo parece esforço demais. Ando respirando fundo, talvez numa tentativa de fazer o coração aceitar o oxigênio que força entrada até ele. Em troca, ganho apenas umas batidinhas mais rápidas, que reúnem minha energia escassa apenas para repelir ar, sangue, sentimento, tudo. Coração oco. Quem sugou minha vontade de viver?
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Sou apenas um fantoche esquecido, des-animado, em mim nada se constela, nada a não ser que exista um arquétipo do Mar Morto ou um complexo da Ebulição Extinta. Ao meu redor, tudo morre ou se dissolve ou se destroi. E eu me sinto só. Sozinha como um bebê recém-nascido que se pergunta para onde foi a outra extremidade do seu cordão umbilical. Cortaram o meu. E eu estou sozinha no mundo, abandonada não à sorte mas ao cansaço. Minha paixão agora se curva ao futuro, como meus ombros; minha fé deve ter ido ao mesmo lugar para onde foi o brilho que habitava meus olhos. Não quero música nem letras nem aprendizados nem companhias - eu quero matar o tempo que me mata. Mas, ao olhar para o tempo, me sinto cansada, exausta de Ser, e enquanto ele me espreita à espera das crises de angústia mais intensa, só o que sei fazer é dormir pra ver se ignoro por algumas horas o meu estado de não-estar. Quem sabe ao acordar eu me veja envolta em tamanho desespero que desmonte rumo ao chão e chore, chore, chore, chore... Eu preciso chorar.

15.10.09

Síndrome do Colo Vazio

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Quanto mais informação ela poderia aguentar? Ela só queria saber se seu coração conseguiria bater mais rápido, se haveria jeito de ela se sentir mais desconfortável no mundo. Essa angústia que a havia tomado inquietava seus olhos, desconsertava suas mãos e a afundava no sentimento de remorso e impotência apesar da vontade de ajudar, de se fazer presente, de oferecer seu colo.
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Seu colo - como ele se havia transformado em um vão? Por que ela o havia negado para ele?
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Agora ele havia ido embora e ela tinha ficado sozinha com seus conhecimentos. Agora ela sabia que o tinha perdido para a Ignorância, o mar do qual ele talvez nunca emergisse, pois a única pessoa a quem ele tinha pedido colo - um colo existencial que mostrasse a ele o mundo além do superficial -, essa única pessoa estava demasiado perdida dentro de si mesma para enxergá-lo, entendê-lo, compreendê-lo. Ela sabia que não mais poderia ajudá-lo, que o Encontro se havia desencontrado de uma forma aparentemente irreversível.
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Perplexa por enxergar a teoria do caos na prática, constatou que esse caos era culpa sua. A sua negligência com os outros, a sua infidelidade a seus próprios sentimentos - era, sim, uma sabotadora de si mesma e agora era tarde demais para remendos. Seu colo vazio chorava as consequências de ser vazio; e ela, sozinha, percebeu que tinha perdido o colo que a havia acolhido e amargou a ausência daqueles olhos que um dia a compreenderam.

6.10.09

Mar Adentro

Ela olhava para o Mar. Sentada da areia, onde a cabeça fervilhava com ideias recém-descobertas, olhava na direção daquelas ondas que se sobrepunham umas às outras sem nunca pararem. Ela sabia contemplar o Mar, reconhecia sua beleza mesmo nos dias em que Ele não refletia seu azul usual. Olhando para Ele, se perguntou quantas vezes haviam sido cúmplices de pensamentos, de planos, de sonhos. Não podia calcular quantas vezes confidenciou segredos ao Mar, quantas vezes chorou para que só Ele visse, quantas vezes desejou se atirar e afundar. Aquele Mar, às vezes mesmice, às vezes agitação, mas sempre certeza da presença. Aquele Mar que era dela. Por que se limitava a contemplá-lo? Por que sentia pânico sempre que seus pés tocavam a água? Por que se ela sabia que, ao fundo, eram um só?
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E essas ideias que lhe haviam escapulido da boca sem nunca antes terem sido sequer notadas no pensamento, de onde tinham vindo? Seriam a verdade contida? Escondida? Abafada? E por que tinham saído agora, justo agora quando não era possível mudar seu destino, quando já havia tomado suas decisões?
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"Mergulhe".
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De onde veio esse pensamento? Quem a mandava mergulhar? Mergulhar onde? Na água?
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"Sinta a água, mergulhe".
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Sua respiração se tornara subitamente ofegante. Como assim mergulhar? Não fazia isso há anos... Não havia por quê... Não devia...
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"Mergulhe".
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Num ímpeto, se levantou e caminhou na direção do mar. Caminhou com a pressa de quem desafiava o medo, um medo que talvez não mais sentisse. O que quer que estivesse debaixo d'água, o que quer que a amedrontasse, ela não ligava mais. Queria o Mar, desejava o Mar, precisava senti-lo. As ordens que ecoavam dentro dela vinham do mesmo lugar de onde saíram fugidas as verdades que ela precisou verbalizar para ouvir: vinham do seu Eu, daquele que sabe tudo mas não torna tudo consciente. Não pensou em nada disso enquanto caminhava, ela apenas sabia. Sabia que queria, sabia que precisava. As ondas fortes, a correnteza, nada a impediu de entrar na água.
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Não sentiu medo enquanto estava ali. Sentia um prazer indescritível, regozijo de ser quem era, regozijo de sentir que era, que existia, que vivia, que experienciava. Era como se cada grão de areia nos seus pés pudesse ser sentido, como se soubesse de cada gota minúscula que compunha aquele mundo de água que a cercava. Mergulhou - dos pés à cabeça dentro da água. Mergulhou e sentiu, assumiu o que sentia.
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Seria assim dali pra frente? Talvez o prazer do mergulho compensasse os medos da água que não se deixa enxergar além da superfície, o pavor das ondas imprevisíveis, o pânico de ser puxada pela correnteza e nunca mais voltar. Só saberia se continuasse mergulhando. Mar adentro, deveria haver vida após a desilusão.

26.8.09

Por onde anda o Eu que eu deixei aqui?

Ainda no jardim na frente de casa, procurou na bolsa a chave da porta principal, a chave que ela há tempos não usava. Arrastando a mala de 26kg, seguiu até a porta. Respirou fundo. Girou a chave. Empurrou a porta. Olhou ao seu redor e lembrou que havia ido embora com lágrimas nos olhos, torcendo para que o tempo parasse e tudo estivesse igual no dia do seu retorno. Deveria ter sorrido ao notar que seu desejo ali era atendido, mas se sentiu inquieta, levemente desconfortável. Achava que estava exausta, que queria chegar, mas se esqueceu de confirmar com seu inconsciente aonde queria chegar, de forma que precisou pôr os pés em casa para descobrir que não era lá que queria estar. "Eu estou cansada, é só isso, amanhã vou me sentir melhor". Sem desfazer as malas, foi dormir.
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A verdade é que dias passaram, semanas vieram e se foram - e ela continuava se sentindo fora do lugar. Sua vida estava ali, seu trabalho, suas obrigações, seus estudos, sua família, seus amigos, seus amores, tudo do mesmo jeito de sempre, como se aquele lado do mundo não tivesse continuado a existir quando ela não estava lá. De algum jeito, no entanto, para ela era tudo novo e estranho e incompreensível. Já não se sentia à vontade ao lado das pessoas que um dia teve medo de perder para a distância, já não tinha vontade de voltar ao trabalho, seus amigos falavam de coisas que ela não entendia, sua família nunca fora tão distante, sua rotina não fazia sentido. E, afogada em tanta informação desprezível, percebeu que estava absolutamente perdida, como se tivesse que assumir a identidade de alguém que nunca antes havia visto.
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Na última tentativa de descobrir onde tinha ido parar a identidade que a fazia pertencer àquele mundo, olhou para dentro de si mesma; apertou os olhos, franziu a testa e não pôde evitar a pergunta: "quem diabos é você?". Não, ela não se reconhecia. Deveria? Ao desejar que o mundo inteiro parasse enquanto ela tirava férias de si mesma, não lhe ocorreu que seria necessário pausar a si mesma se quisesse continuar a fazer parte do cenário. Concentrou-se nas circunstâncias, esqueceu-se dela. Deixou-se levar por novos ares, esqueceu que voltaria, cercou-se de novos hábitos, de novas pessoas, de novas rotinas, acreditou que fazia parte daquilo. Havia mudado, embora não lembrasse como. Havia mudado sem nem ter desejado mudar.
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Não, ela não vai compreender o que aconteceu no estalo de um insight. Talvez permaneça perdida no interior de seu interior, tentando dizer o quanto do que vê é novo e o quanto do que sobra é sua essência um dia esquecida, apagada. Ainda não desfez a mala e não sabe por quê. É possível que ainda persista nela a vontade de voltar para o mundo que moldou seu novo Eu. É possível que ela acabe gostando de quem é agora. É possível que ela se esforce para mudar o Mundo que, uma vez pausado, não a acompanha mais. É possível que ela se submeta a dar explicações ao Mundo indignado por ser mudado depois de tanto esperar. Certeza ela só tem uma: que não trará de volta o Eu que um dia foi. Ele não é mais compatível com seus planos. Ele não é mais quem ela gostaria de ser.

25.8.09

Encarando os Fatos

Que venham as lembranças... E que se contentem em ser só lembranças. Que sejam despertadas por músicas, por pensamentos, por sonhos... e que se reduzam a falar do passado. Que tragam bons sentimentos, sorrisos, até um olhar diferente... mas que nunca se transformem em expectativas.

20.6.09

It's Ending All Too Soon


(Para ouvir lendo: Pete Murray - Opportunity)
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Isn't it funny that lost days may turn out to be the best ones? I just had the most lovely afternoon, just when I believed I would have to put up with a boring idle weekend. A CityCat ride, a few pictures at SouthBank Park, a happy street performer, a large cup of coffee with extra sugar along with an attendant that hopes to see me soon, green green grass, shiny day, blue sky, the company of a good book. What else could I possibly ask from a Saturday afternoon?
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It makes me think there is nothing wrong with homealone saturday nights. It makes me think I don't really need drunk rocking nights at huge parties amongst people I hardly know. It makes me think I might not be in a hurry to go back home, it gives me the certainty that there are plenty of opportunities screaming for my deaf attention just here, right now. Afterall, it's ending all too soon (Pete Murray adviced me so).
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It's all about looking at the situations with your soul, not with your eyes. And, for the feeling that follows a soul-look, there is no other name but amazement.

17.6.09

Sabedoria Australiana

A little of what you fancy does you good. Parecia que a semana tinha acontecido somente para que ela ouvisse essa frase, dita da boca de seu professor às 9 horas da manhã de quinta-feira. Ela tinha passado os últimos dias perdida na estranheza de buscar convicção e certeza em coisas naturalmente incertas e deparar-se com o little foi suficiente para que ela entendesse que havia errado. Ela andava tentando classificar os acontecimentos em coincidências e destinos, em acasos e finalidades, sem nem perceber que não havia nada para classificar. Não, não havia nada, absolutamente nada para classificar, exceto o que ela havia inventado no interior de seus fantásticos mundos de Bob - e que, portanto, existia apenas lá, longe do real. E classificar o irreal tentando aplicar as consequências da classificação na realidade é tentar impedir a água de escorrer entre as mãos. Paciência. Afinal, se existe alguma finalidade em casos de curta duração, é que eles não durem muito. É assim: it's there, it's good, it's gone. Contente-se com as memórias ou desista delas - sim, as memórias, pois elas são a única coisa real que permanece nesses casos. E é essa toda a filosofia do provérbio que tanto fez sentido: a little of what you fancy does you good. Nem mais um bit além do little. Demorou, mas eu entendi.

7.6.09

Aurora ou Alegria do Encontro

- Todos vão até ela buscando algo - ela disse -, todos têm um motivo. Eu já vi mulheres lindíssimas dizerem que iam até lá apenas para que pudessem ser bonitas em paz, sem que as pessoas as ficassem observando, medindo, acompanhando. Já vi gays irem até lá apenas para que pudessem ser gays em paz também, sem olhares arregalados ou caras de espanto moralista. Já vi gordos irem usando tops, como quem diz "lá fora eu não posso, mas eu não deixo de ser alguém porque as pessoas me olham torto". Já vi artistas irem lá apenas para externalizar uma arte que fica o tempo todo presa sem poder sair. Já vi gente que queria apenas assumir "eu não sou igual e detesto o preconceito com a minha diferença". Já vi gente que foi só porque queria usar uma meia diferente em cada pé. Ou sapatos de borracha. Ou asas nas costas. Outros vão apenas para preencher o vazio existencial com o qual são confrontados todos os dias ao dar de cara com as superficialidades e automatismos da nossa vida como ela é. Todos têm um motivo e, para cada um deles, a rave tem um significado. É isso que eu acho foda.
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Falou tudo isso enquanto faíscas de plenitude saltavam de seus olhos. Ao voltar do êxtase, olhou para o lado e se pôs a observá-lo dirigindo. Ele ouvia pacientemente, acompanhava o momento catártico que ela tinha num silêncio de concordância, de compreensão, num silêncio de quem alcança aquela percepção também. Ela virou o rosto para o outro lado, olhou pela janela e observou a paisagem passando rápido. Desejou que ela passasse mais devagar, talvez numa tentativa de fazer com que o momento durasse mais ou que pelo menos o tempo não fosse tão inexorável em seu ritmo compassado e ininterrupto. A consciência de seu desejo foi interrompida por ele, que, após um ou dois minutos, virou-se para ela e perguntou:
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- E qual o sentido disso tudo pra você?
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Ao ouvir aquilo, ela sorriu com os lábios e com os olhos. Sorriu porque ele a entendia e não achava que seus pensamentos loucos às 10h da manhã quando já estavam acordados há mais de 30 horas eram tão loucos assim. Ele havia entrado nas loucuras com as quais ele sempre conviveu solitariamente. Ele se havia proposto a vivenciá-las com ela, a conhecê-las, a se deixar levar. No mundo dela, isso era raro, jamais passaria despercebido. Ela, que sempre se sentiu tão só, tão incompatível com o real coletivo. Ela, que sempre encontrou expressões de espanto ou indiferença quando falava dos seus sentimentos do mundo. Ela agora encontrava um colo existencial e não poderia ser mais feliz que isso em qualquer outro momento da sua vida.
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Não conseguiu sequer pensar em uma resposta à altura da pergunta porque a alegria do encontro a havia tomado de tal forma que o cérebro não conseguiu processar nada além de emoções e sensações. E aquele dia valeu mais que os milhares anteriores que ela tinha vivido. A sua Aurora era ali. Ali acontecia, naquele exato instante, o nascimento do seu dia, do seu sol. Ali ela nascia de novo. Era ela mesma a Aurora de sua vida. E aquele era, para ela, o maior sentido que uma experiência poderia ter.

3.6.09

Contratos, Fatos e Memórias

Negando o romantismo, agiram como se românticos fossem. Pareciam ter esquecido que, desde o começo, haviam selado um contrato tácito de liberdade e prazo de validade, um contrato através do qual se permitiriam tudo e qualquer coisa que esses relacionamentos normais perdem com suas preocupações pudicas e moralistas - não eram sequer um relacionamento. Talvez não tivessem notado que o "tudo" logo depois do "se permitiriam" era realmente abrangente e englobava inclusive a possibilidade de gostar e querer ficar.
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Negando o romantismo, inconscientemente dormiram abraçados, como se aquilo fosse costumeiro e frequente desde sempre. E, já que sempre faziam o que tinham vontade, seguiram também a vontade de cuidar um do outro, de fazer carinho, de tocar as mãos, de ter certeza que havia sobrado cobertor suficiente para que o outro se protegesse do frio do arcondicionado.
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Negando o romantismo, acordaram no dia seguinte e cada um seguiu feliz o seu caminho, pois aquilo parecia suficiente. E, por se sentir tão solto e liberto e satisfeito, ele sentiu-se também confortável o suficiente para mandar uma mensagem de texto dizendo que ainda tinha vontade de vê-la. Por se sentir tão tranquila e completa, ela não hesitou em vê-lo na noite do mesmo dia e do dia seguinte também, assim como no dia seguinte ao dia seguinte.
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Negando o romantismo, não se cobraram, não se limitaram a cumprir papéis. Apenas eram o que queriam ser. Negando o romantismo, não criaram expectativas mas preferiram ser a realidade das expectativas que não se faziam necessárias ali. Negando o romantismo dos livros, dos filmes, dos ideais, descobriram que construíam romance todos os dias, em cada detalhe espontâneo, fora de controle. Negando a superficialidade dos romances, ele não pediu que ela fosse Julieta e ele não pediu que ela fosse Romeu. E foram felizes em cada segundo daqueles dias que passaram tão fora de scripts e obrigações.
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Ele teria pedido a ela que ficasse, ela teria pedido a ele que a acompanhasse, mas ambos optaram por permanecer em silêncio e apenas deixar que o adeus viesse lento, ao longo de oito dias inteiros, pois sabiam que essa era a única maneira de se tornarem eternos.
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Agora ela sente saudade. Talvez dele, talvez mais ainda do sentimento de um romance que só se fez conhecer depois que se encerrou. Mais que tudo, ela sente uma estranha alegria da perfeição estanque, que jamais deixará de ser perfeita, pois simplesmente já foi. Leva consigo, dentro de sua mala que atravessará o Pacífico, cada sensação que ele a fez viver. E sabe que deixa com ele um pouco de tudo que ela sempre quis ser. Negando o romantismo, serão românticos para sempre - afinal, contratos regem os fatos, não as memórias.

25.5.09

A Teoria dos Três Maridos


Mulheres, assumam: cada uma de nós precisa de três maridos. Homens, aceitem essa verdade universal. Veja bem, não se trata de defender a poligamia como um meio de cair na putaria; é simplesmente uma redistribuição de papéis e funções. Afinal, o quanto exagerado e ineficaz pode ser esperar que uma única pessoa reúna todos os atributos de que você precisa? Quem é esse ser, o Super-Homem? Vamos tratar de cair na real, se existe um Superman, ele com certeza não é do nosso mundo (e o criador dos quadrinhos muito sabiamente soube deixar isso claro). E, que as mulheres são altamente exigentes, todo mundo sabe também. O que nós queremos é uma pergunta simples de responder: queremos um homem divertido e rico e trabalhador e inteligente e bonito e sexy e carinhoso e independente e dependente da gente. Como eu disse, é simples responder. Encontrar esse ente é que é mais complicado. Pior ainda é tentar ser um. No mais, os próprios homens reclamam das inseguranças e dos ciúmes femininos, da demanda constante e incessante por atenção, carinho e cuidados, e na quase necessidade de ser vidente para conseguir enxergar com clareza a cabeça de uma mulher. Vocês, homens, com certeza sentem falta da terça-feira do futebol com os amigos ou de dormir sozinho um dia ou de beber até cair sem se preocupar com o que a namorada/esposa vai dizer. Deixem as desculpas de lado e assumam isso também.
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Tudo se resolve de uma maneira muito fácil. Uma amiga minha, Catarina, tem uma teoria que muito contribuiu para a minha Teoria dos Três Maridos. Ela disse: "O homem ideal seria bonito, inteligente e bom de cama". E prosseguiu com uma conclusão brilhante: "...mas nenhum homem consegue ser as três coisas ao mesmo tempo. Então, vamos organizar uma lista de prioridades e buscar um homem que tenha ao menos duas das nossas características mais desejadas". Com a Teoria dos Três Maridos, eu acho que vou mais além. Não há por que se contentar com apenas duas coisas mal feitas se podemos ter as três, não é mesmo?
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1. O Homem-Pavão. Toda mulher precisa ter um cara bonito. Sexy. Elegante. O bom e velho homem-troféu pra ela dizer "é meu, olhem à vontade". Aquele homem que dá gosto de olhar. Aquele homem com quem a gente entra imponente nos lugares. Aquele homem pra ser cobiçado. Aquele homem que te pega de jeito. Que te faz chegar em casa suspirando pelos cantos e questionando a realidade. Aquele que te leva para as baladas mais loucas e divertidas. Afinal, o sentimento de pavão (vulgarmente conhecido como "vontade de se exibir") faz parte de nossa pobre natureza humana. E negá-la talvez seja negar algo que compõe nossa própria subjetividade, negar nossos desejos e instintos mais primitivos. O homem-pavão é necessários para saciar esse quê de primitivo que existe na gente. E, pode acreditar, isso ele faz bem.
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2. O Homem-Assistência. Mas o homem-pavão não é muito bom em dar a atenção constante de que a gente precisa. Não é ele quem olha pra você e diz, com os olhos brilhando, "como você é linda", não é ele que fala de planos de futuro, dos nomes dos filhos, não é ele quem leva você pra comer uma pizza no domingo à noite. Não é ele quem fala da família, dos pais, dos tios, dos primos, dos irmãos, não é ele aquele que dá risada quando você conta das suas gafes ou dos seus defeitos. Esses são papéis dos homens-assistência. O homem-assistência é aquele que te manda mensagens de texto o dia todo, que te liga pelo menos uma vez por dia para contar do dia dele e saber do seu, que anda com você de mãos dadas pela rua, que sorri até para os seus bocejos, que te dá presentes e prepara surpresas e pensa em todos os detalhes que podem te deixar feliz. A maioria das mulheres acha que ter um homem-assistência é o supra sumo da vida. Mas a verdade é que homens-assistência são chatos a longo prazo. Mais um motivo para investir na Teoria dos Três Maridos.
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3. O Homem-HardWorker. Mas nem só de romance e diversão viverá a mulher. Porque ela também quer um homem que desperte sua admiração por sua inteligência, por sua habilidade de argumentar e persuadir, por seu conhecimento sobre tudo o que desperta seu interesse. O homem-hardworker obviamente works hard. Trabalha duro e merece cada centavo que ganha, se destaca em qualquer lugar em que for colocado, discute filmes, livros e peças de teatro, tem segurança o suficiente para discordar de você. O homem-hardworker é aquele que te faz apertar os olhos em expressão de desafio, que te faz raciocinar cada frase e buscar nela todas as possibilidades de sentido. É o homem de senso de humor fino, de piadas inteligentes, de conversas profundas e intermináveis. É o homem que valoriza as suas ambições intelectuais, acadêmicas e profissionais, é o homem que te diz "go for it". É o homem que reconhece suas competências. E não se ofende se você diz "a conta é minha hoje".
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Eu sincera e honestamente acredito que, se cada mulher tivesse três maridos, o mundo seria menos cheio de conflitos. As cobranças sobre namorados e cônjuges seriam consideravelmente menores ou menos frequentes, pois estariam distribuídas ao longo da cadeia de valor afetiva. Existiriam menos mulheres frustradas e menos homens estressados. Obviamente existe a flexibilidade de cada tipo de homem eventualmente migrar de um estilo para o outro por um dia ou dois, mas, no fim das contas, eu não pediria que você fosse inteligente e perspicaz se o seu dom é ser assistencial, nem cobraria a assistência que um homem-pavão não pode me dar, assim como não pediria que um homem-assistência bebesse comigo até cair na balada.
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Por fim, você me vem com a ilusória afirmação: "mas eu consigo ser os três, tudo dependendo do momento e da situação". A essa ilusão, eu respondo: quem serve a dois senhores, não serve bem a nenhum. Então, trate de identificar que tipo de homem é você e estimule o maior número possível de mulheres a adotarem a Teoria dos Três Maridos. Assim, os que querem dar e receber assistência, terão sua oportunidade; os que querem somente se divertir, somente se divertirão sem necessidade de se preocupar com o dia seguinte; e os que querem competir, competirão. E as mulheres ficarão plenamente saciadas, óbvio. É a política do ganha-ganha: ganho eu, ganha você.
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E aos engraçadinhos que pensarem em propor uma Teoria das Três Esposas, eu sugiro: se mudem para a Índia ou virem mórmons.