quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Futebol: capitalismo, nacionalismo e irracionalismo



 Hoje em dia existe um negócio tão grande, e não menos sujo, quanto o do petróleo e o das armas: o futebol. O futebol é mais que um desporto: é um conjunto de empresas e um moderno sistema capitalista bastante difícil de decifrar. Agências milionárias, clubes milionários, jogadores milionários, etc., constituem esta "empresa" (ou sem aspas) que transita mares de capital. Em pouco mais de trinta anos, esta modalidade evoluiu do dia para a noite, os jogadores passaram a ser quase como mercenários, os clubes empresas e, os restantes que constituem este desporto, burocratas. Também, e aliás, principalmente, deve-se às cadeias televisivas que alimentam este negócio, com contratos milionários e biliões de espectadores levam a cabo um género de cruzada pelo mundo espalhando-o; quanto mais o consumirem, mais alimenta esta máquina  capitalista e criminosa, até ligada muitas das vezes ao crime organizado. 

 Quem alimenta tudo isto? Nós é claro. Se, em épocas desportivas, principalmente campeonatos internacionais, ligarmos a televisão, assistimos a um enaltecimento, por exemplo, da selecção nacional: os fantásticos; os heróis; os melhores do mundo, etc. Qualquer coisa como 70% dos media por esta altura está infestada pronta para infestar o nosso cérebro; existe um pique de audiências e, consequentemente, mais dinheiro. Por isso, já que em Portugal não existe mais nada que as pessoas, de um modo geral, gostem tanto estupidamente, o futebol é usado como um escape lucrativo para a imprensa, para grandes empresas, e até para o estado. 

 Actualmente, e no meu ponto de vista, os exemplos de grandeza que se dão neste país é ser-se "Cristiano Ronaldo". Este grande desporto é então usado para encobrir os problemas sociais, culturais, económicos, atrasos e deficiências desta nação. O estado, a comunicação social e uns quantos empresários moldaram desta forma o centro da cultura de muitos portugueses, colocando infiltrada-mente o futebol na cabeça de cada um a pouco e pouco. É uma espécie de suicídio cultural colectivo; um género de uma droga que mata o vício (faz esquecer certos problemas) temporariamente, uma "bebedeira visual". Se nos trouxe-se alguma felicidade, seriamos dos povos mais felizes do mundo e pelo contrário, até somos dos mais tristes segundo um estudo recente. Assim, considero o futebol como mais um consumismo instalado pelo capitalismo, é igual a qualquer bem material supérfluo: compramos mas não sabemos bem porquê, não nos vai fazer felizes mas iludimos-nos com essa ideia e continuamos a fazê-lo. 

 A nossa pátria já não é dedicada a nós, mas sim a um grupo de onze. Habitualmente de dois em dois anos o orgulho dos portugueses é depositado na selecção nacional de futebol. Realmente não vejo outros grandes motivos de orgulho mas no mínimo podíamos reparar em outros aspectos do nosso país e glorifica-lo do mesmo modo que se glorifica a selecção, que na minha opinião não é sequer motivo de orgulho tal como qualquer outro clube, por ser exactamente só isso: futebol. Encontro um paralelismo entre as lutas de gladiadores romanas e o desporto rei: nas lutas de gladiadores o povo romano gritava por sangue dos escravos que lutavam e eram brutalmente assassinados numa arena. A sobrevivência destes dependia deles e principalmente do povo que demovia o imperador a dar ou não ordem de execução, a sua liberdade, vida e alguma felicidade era assim regida por terceiros. No séc. XXI, com se costuma dizer, o escravo tornou-se o mestre, claro que as sanguíneas batalhas felizmente já são história mas o comportamento humano é idêntico, dependendo agora um pouco a felicidade do povo o sucesso dos jogadores que neles crêem. Recordo-me do euro 2004, Portugal foi anfitrião da competição, tínhamos todos bandeiras nas janelas e  gritámos pelo nosso país desalmadamente. O problema foi que não gritámos pelo país mas sim pela selecção, ou seja, por um grupo de onze jogadores tão humanos e tão falíveis quanto todos. Mas por que é que a selecção nunca grita por nós ou mesmo pelo próprio país? 

 No que toca a fanatismo, o futebol é qualquer coisa de extraordinário. Portugal, internamente ou externamente, já não tem qualquer tipo de divergências com outras nações ou regiões à bastantes anos, a não ser quando se joga à bola. O futebol é último grito de nacionalismo quase, e muitas vezes, extremo , criando até, em várias ocasiões, ódio onde ele não existe. A rivalidade entre clubes é algo que considero ridículo, nunca se discute tanto um assunto quanto este nos cafés, em multidões e programas mentecaptos de televisão. Cada vez que oiço em falar de um Benfica-Porto ou outro derby qualquer "importante", lembro-me sempre de um exercito saído da era medieval a carregar estandartes a gritar cânticos de guerra. Porquê? Exactamente porque, como disse à pouco, o futebol é último reduto do nacionalismo em massa em Portugal. Quase como uma religião, os seus crentes seguem dirigentes que apelam ao regionalismo (como "pequenos Hitler's"), ou seja uma divisão social que de vez em quando gera violência ou mesmo mortes; as pessoas "filosofam" umas com as outras sobre o que se deveria ter ou não feito no jogo ou se devia ter comprado ou não aquele jogador (como se dum produto se tratasse), etc. E isto é grave, de modo geral as crianças portuguesas, nomeadamente os rapazes, querem ser jogadores de futebol: não acho mal mas porque é que só existe este exemplo? Os pais não são suficientemente exemplares? As entidades não querem que as pessoas pensem, querem fantoches. Portanto, digo que não somos muito diferentes de um animal doméstico: damos-lhe comida e ele fica contente. Nem um chimpanzé é tão brando, pois só come a fruta que deseja.  

 Concluo que hoje em dia por vivermos no país onde vivemos e com as dificuldades nele criadas, temos de nos ocupar com alguma coisa, mas precisamente para não reflectirmos sobre o estado das coisas, os oligarcas portugueses dão-nos entretenimento rápido que cega até os mais atentos. Onde é que anda a verdadeira cultura? A música, a política, o homem de modo geral, o nosso futuro? 
Já imaginaram um Portugal sem futebol? O que era feito do nosso tempo livre? Creio que seria uma maçada ocupar-nos com cosias realmente úteis para nós. O difícil que era darem-nos razão para gritar por algo sem ser bola... A quebra de lucros comunicação social, as mascaras do país, os nossos filhos sem saber "o que querem ser quando forem grandes"! As rivalidades entre Lisboa e Porto...

  O futebol, mais que um desporto em Portugal: uma das receitas que o nosso estado fornece para a ignorância geral. 

 Se gosto de futebol? Sim gosto. Se sou adepto de um clube? Sim sou. Mas penso que temos de ser as mãos por detrás dos botões e nunca o contrário. 

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